O BORDER COLLIE, por Dan Wroblewski e André Camozzato

O Emporium dos Cães tem uma grande dedicação à Raça Border Collie, e tem como objetivo a criação do “Border Collie Ideal”, que seria aquele Border Collie com bom instinto de pastoreio, capaz de se dar muito bem no agility, e ainda com admirável beleza, claro que tudo isso mantendo sempre em primeiro plano o aspecto da saúde. Para isso, estudamos muito as várias linhas de sangue presentes no Brasil e no mundo.
Tivemos então a idéia de “bater um papo” com os mais importantes criadores de Border Collies de Pastoreio, Agility e Beleza para saber deles um pouco da sua experiência e opinião.
Para representar o canil de pastoreio, contamos com a colaboração de André Camozzato, pecuarista, engenheiro civil, criador de Border Collie desde 1994, proprietário do Canil Encruzilhada do Sul, presidente da Associação Brasil Border Collie – ABBC.
Para representar o canil de agility, contamos com a colaboração de Dan Wroblewski pioneiro do agility no Brasil, veterinário, criador de Border Collies desde 98, juiz e condutor de cães de agility, Bi Campeão  das Américas e Caribe (2007/2008), proprietário do Dog World escola tricampeã Paulista e Brasileira de Agility06/07/08, Chefe da equipe Brasileira de agility em mundiais e provas internacionais desde 99 e atual vice-presidente do KCSP.

Emporium dos Cães (EDC): Desde quando cria Border Collies? Conte um pouco sobre o seu primeiro border.

André Camozzato (AC): Desde 1994. Fiz intercâmbio de 2º grau nos EUA em ’82 e quando voltei lá, em ’90, para fazer estagio em Engª Civil fiquei com a mesma família em uma fazenda. Lá eles mexem com Border Collie direto no rebanho. De ’90 até ’94 fiquei pensando em trazer estes cães para ajudar em nosso serviço na fazenda. Em Fevereiro de ’94 a vontade “saiu do papel” e trouxe um casal de BC’s do Missouri; a Freckles e o Scott.
De ’94 até 2001 importei ao todo os seguintes cães:

Dos Estados Unidos – Freckles (imp. ’94), Scott (imp. ’94), Toss (imp. ’94), Liz (imp. ’94), Rocky (imp. ’94), Lassie (imp. ’94), Ben (“Bandit”) (imp. ’98), Speck’s Midge (imp. ’98), Cap (imp. ‘2000), Lockeye Turbo (imp. 2000) (Todos registrados na American Border Collies Association, Inc)

Do País de Gales – Bwlch Moss (imp. 2001) e Bwlch Dell (imp. 2001) (Todos registrados na International Sheep Dog Society e no British Kennel Club)

Do Uruguay - Tina Du Manoir Du Lac (imp. 2002) (Registrada no Kennel Club Uruguayo)

Dan Wroblewski (DW): Desde o início dos anos 90 passei a admirar os Border Collies, estava tentando implantar o agility no Brasil, viajei para alguns países para conhecer mais sobre o esporte, daí vi o desempenho, inteligência e a versatilidade desta raça e me apaixonei. Em 98 comecei a criar Border Collies. Meu 1º cão foi o Blue, Lad De Preton, que trouxe do RS, no mesmo ano adquiri a Bruma Do Kanove, foram meus 1ºs cães. Até hoje o Blue é o símbolo do nosso canil/escola, está em atividade e com dez anos tem chances de ganhar o grau 2 no Brasileiro deste ano, parece que não envelhecem e querem ser sempre prestativos, são demais, Border Collies são cães especiais!

EDC: O que mais te fascina em um Border Collie?

AC: A aptidão genética para pastorear rebanhos.

DW: Acho que Border Collies são cães para donos experientes, não são bons “pets”, mas para quem tem experiência em ter cães eles são fascinantes, pois são inteligentes (aprendem mais rápido que outras raças e prestam mais atenção também), são dóceis, carinhosos, rústicos (agüentam, sol, chuva e quase não adoecem), brincalhões e sempre estão à disposição para trabalhar, competir ou fazer qualquer atividade, talvez esta última qualidade seja a que mais me fascina e a que mais me deixa satisfeito com eles!

EDC: Qual a característica mais importante em um Border Collie para você?

AC: O poder de resolução e a facilidade no aprendizado.

DW: Vontade de pastorear. Você me perguntaria por que, se meu negócio é agility, né? E te respondo por que o Border Collie é o que é pela seleção que foi feita em séculos de seleção e sempre se acasalou cães que trabalhavam melhor, ou seja que pastoreavam melhor, daí que são o que são por esta seleção bem sucedida. Os cães fazem agility, obediência, etc porque pastoreiam ou pastoreavam, portanto nós não podemos esquecer disto e temos que manter este instinto e busca-lo na nossa criação. Logicamente se além dele pastorear, ele brincar, será ideal para fazer agility!


EDC: Qual foi o seu Border Collie mais importante? E por quê?

AC: Pergunta difícil! O Ben (“Bandit”) foi, sem dúvida, o melhor padreador. Mas o Toss foi (nascido em 1994 e falecido em 2007) o “meu Border Collie mais importante”. Isto em função de tudo que representou para mim em termos de parceria desde o tempo que eu ficava quase a semana toda na fazenda (1993 a 1998) e ele era meu “cão campeiro”. Depois foi treinado para provas pelo Ildo Figueiró e venceu dois Campeonatos Brasileiros de Pastoreio com Ovinos (2001 e 2003). Além disto, foi nosso “braço direito” em muitas demonstrações de pastoreio por esse Brasil afora “quebrando ovelhas” e sempre pronto para ir para a estrada ou para embarcar num avião.
Tinha um senso de rebanho incrível e respeitava sempre o rebanho e o condutor. O temperamento dele é o campeão de todos os cães que já tive.

DW: Com certeza, para a criação a Dina foi meu Border mais importante. Porque tem muito instinto de pastoreio, tem bom temperamento, transmite isto para seus filhos e é uma Campeã de Agility (bi Campeã Américas e Caribe) além de ser marrom e de ser linda! Ela trouxe uma família de cães bons tanto para o canil quanto para quem adquiriu filhos dela, com ela temos Borders bons e bonitos no plantel . Hoje existem dezenas de filhos e netos dela competindo no Brasil e na América Latina. A Dina veio importada da Holanda e não imaginava que teria tanto sucesso quanto tive com ela, devo a ela bastante quando se fala em criação de Border Collie do Canil dos Pardais.

EDC: O que você acha da criação de Border Collies do Brasil?

AC: Olha. Tem de tudo. Faz parte do processo de desenvolvimento da raça. Temos quase nada de cultura em termos de Border Collie... Isto demora tempo para “se firmar” e “se formar”. Acredito que em uns 15 ou 20 anos vamos estar falando menos e melhor sobre Border Collie!!!

DW: Acho boa, há alguns anos atrás o pessoal do pastoreio não fazia controle de displasia, mas hoje isto já é feito, portanto vejo um plantel de cães bons para pastoreio e para agility e vindos de diversas partes do mundo, muita gente importou cães dos EUA, Europa, Oceania e América do Sul e temos cães ótimos, vários treinadores de fora já atestaram isto aqui quando vem dar treinos no Brasil! Precisamos cuidar mais da displasia coxo femoral e de outros problemas da raça e não deixar que a quantidade atrapalhe a qualidade e teremos um plantel desta raça por aqui!

EDC: Qual é o objetivo da sua criação?

AC: O pastoreio. A felicidade dos cães e a satisfação dos produtores rurais.

DW: Pretendi sempre ter cães bons para agility e pastoreio, que gozassem de boa saúde e que fossem cães belos também pois o proprietário urbano, nosso cliente, gosta de mostrar para a sociedade um cão belo, então pretendemos no Canil dos Pardais criar o Border Collie com instinto e saúde para o trabalho e se possível que os animais sejam bonitos.

EDC: Quais os principais cuidados que toma em sua criação?

AC: Qualidade não é sinônimo de quantidade.
Seleção não se faz somente com os cães que se tem.
Cuidar aspectos de saúde dos cães, sanidade, higiene e alimentação.
Trabalhar bem frente ao rebanho é fundamental.
Ter registro é fundamental.
Fazer a avaliação final do um cão somente após seu treinamento para pastoreio estar concluído.
Como já dizia o Mr. Glyn Jones; cada cão é um indivíduo.

Um pouco de filosofia & projetos realizados e a realizar ...
Sempre fiz o que achava certo em termos de criação. Já tive muitos cães e “não dava conta”. Após visitar várias lendas do pastoreio, entre eles o próprio Mr. Glyn Jones em 2001 e 2004, fiz um projeto de redução do Border Collie Club. Castrei e doei muitos cães adultos .. e vendi alguns.
A partir de 2001 iniciei um controle rigoroso de HD (Displasia) ... antes eu repetia o que muitos “gringos” dizem: “não tem displasia em Border Collie; são de porte médio, etc e tal. Pura ignorância minha. Tive constatada displasia em dois dos meus cães importados: Speck’s Midge e Cap ... após o laudo foram castrados e doados.
Por sorte, o Toss e o Ben, que foram meus maiores padreadores, deram HD (-). Vivendo, fazendo, errando e aprendendo!!!
Hoje tenho 7 cães e uma ninhada por ano. Minha esposa tem a Pucca, minha filha tem a Mel e meu filho tem o Queixudo.
Ao total temos 10. Meu objetivo é ter 6 cães e uma ninhada por ano + os cães da minha esposa e dos nossos filhos.
Dos cães que temos hoje, dois trabalham direto no campo com meus funcionários (Jagunço e Pete), um trabalha no campo e corre provas comigo (West), três são treinados pelo Sérgio Magalhães e correm provas com ele (Terra, Vitta e Mel), uma esta na recria (Pucca) e uma é da “velha guarda” (Nina) .... “de canil”.
Estamos com uma ninhada do West x Nina e separamos dois cães para nós; eu peguei o Quieto e meu filho de 5 anos pegou o Queixudo.

Se fosse começar tudo de novo ... faria, mas faria com menos cães e menos “pressa”. Teve uma época que tive 27 cães. Confesso que entrava no canil e ficava triste. Triste por não tem condições de dar condições aos cães. Era frustrante. Eu mesmo criei o apelido de “carandirú” aos canis assim ... tive com base o meu próprio canil antes da reciclagem.

Para acertar na criação de Border Collie não adianta “se espelhar” só em um criador. Tem que formar a própria opinião, ter conceitos e critérios de seleção ... exercer auto-crítica e ter humildade para admitir as falhas.


DW: Criar cães com instinto, e bom temperamento e cães com boa saúde articular para que não tenhamos trabalhadores que não possam desempenhar suas funções. Evitamos também muita consangüinidade e estamos usando cães importados com excelentes laudos de displasia e comportamento para chegar no nosso objetivo que é ter um bom e belo cão de trabalho!

EDC: Quais cães, nascidos no seu canil, são motivo de um orgulho maior? Nesse(s) caso(s) esse sucesso era esperado, ou foi por acaso?

AC: Olha ... tivemos 252 filhotes (deste a Apinta BCC-001 até o Quimba 252 Encruzilhada do Sul). Confesso que “perdi” muitos cães por não dar as condições ideais para eles desenvolverem seus potenciais de pastoreio. Esta é uma autocrítica e ela é muito salutar para mim; até um alívio. Como todos os cães são indivíduos e todos tentam dar o melhor de si ... tenho orgulho e um carinho especial por todos. Segundo a minha esposa, tenho uma preferência pelos “mais desajeitados” com pelo baixo, orelha caída (uma pelo menos) e coleira interrompida ... sempre digo que escolho pelo que fazem ... não pelo que parecem; mas não adianta ela diz que escolho sempre os “mais vira-latas”!!! (risos)

Diria que tem uma cadela em especial, a qual tenho um orgulho maior pelo que já a vi fazer; principalmente trabalhando com gado. É de apelido “Milonga”; nome Ada 147 Encruzilhada do Sul.

Para ter dado certo, tem dois pontos que são protagonistas:

1.Filha do Ben x Cindy. Nascida em 01/02/2002.
O Ben foi o melhor padreador do Border Collie Club. Para ser um bom padreador não basta ser um bom cão ... tem que passar isto para seus filhotes. Tive outros bons cães ... mas os demais dependiam muito da cadela para produzir bons filhotes; o Ben não.
A Cindy, na época também de propriedade também do meu amigo Valmor Fernandes dos Reis, tem linhagem dos cães da minha amiga Annie Houot do Uruguay ... avós maternos Bercy x Floss (pais também da Lisette du Manoir Du Lac ... a Nina do Sérgio Magalhães).
Outros filhotes deste cruzamento também tiveram destaque: “Capitão”; nome ÁTILA 151 Encruzilhada do Sul e o ARGUS 150 Encruzilhada do Sul (este sem desempenho comprovado em provas de pastoreio mas com boa performance em trabalho de campo com gado).

2. Investimento, treinamento e trabalho de campo
A Milonga inicialmente foi treinada pelo Fernando Loiola Alves. Lembro das várias vezes que fomos na “van do Orcil” para correr provas em São Paulo, 2003 e 2004, que a Milonga deixava o Fernando na mão.
Lembro dos telefonemas do Alexandre, proprietário da Milonga, que me ligava à tardinha em dias de provas para saber como a Milonga tinha ido: ... durante um bom tempo a resposta era quase sempre a mesma ... foi mal! O Fernando ficava chateado, mas insistia com ela.
O temperamento da cadela era forte e o Fernando trabalhou duro para dar seguimento no treino com ela. Eu sempre via um potencial incrível na cadela desde muito nova, quando fui visitar o Alexandre Zilken de Figueiredo em São Lourenço do Sul, RS.
Jefferson Egon Munhoz, funcionário do Alexandre, deu seguimento no treinamento da Milonga quando o Fernando retornou para São Paulo. O Jefferson é capataz da fazenda Sta. Adalgiza, domador de cavalos e treinador de Border Collies. Ao treinar a Milonga e também trabalhar direto com ela no campo, Jefferson fez o “ajuste ideal” e ganhou vários Campeonatos com ela nos últimos anos.

2006 - Campeã Gaúcha de Provas de Pastoreio com Ovinos
2006 – Campeã Gaúcha de Provas de Pastoreio com Bovinos.
2007 – Campeã Gaúcha de Provas de Pastoreio com Ovinos.
2007 – Campeã Gaúcha de Provas de Pastoreio com Bovinos.
2007 – Campeã Brasileira de Provas de Pastoreio com Bovinos.

Os responsáveis são todos os citados acima!!!

Enfim, um orgulho maior.


DW: Temos alguns cães nascidos aqui que já são realidade, vou citar apenas alguns e com certeza vou esquecer varios: a 1ª ninhada da Dina com o Magic será inesquecível pois criou Redy (1º cão red merle da América Latina e ótimo cão de agility), Speedy e Bily Brown excelentes cães de agility, os três são belos cães também. Os Dinos, do Zézinho e do Samir são ótimos cães de agility, a Chelsea, o Robinho, o Totó, o Ricco e tantos outros estão se tornando campeões, estamos no caminho certo e isto só nos mostra que temos que seguir neste caminho. A cria mais curiosa do canil é a Dana, cadelinha que doei, depois resgatei, que era medrosa, que ficou midi, que treinei e que foi Campeã das Américas e Caribe comigo e pódium no Mundial com o Samy, ela é a anti-heroina do nosso canil, é feinha, baixinha mas é valente e rápida e como todo Border Collie pode nos surpreender e foi o que ela fez!


O Emporium dos Cães agradece imensamente aos entrevistados por terem “me recebido” tão bem e por estarem proporcionando esse show de aprendizado aos amantes da raça Border Collie. E para quem quiser conhecer um pouco mais sobre o trabalho do André Camozzato, acesse: www.abbc2005.com.br , e sobre o Dan Wroblewski, acesse: www.parquecanino.com.br.